
Calo os gritos que às vezes me apetece dar. Amordaço-me invisivelmente e não falo para que não saia de mim a linha ténue e cada vez mais corroída que nos une. Escrevo palavras que doem, como se elas, por si só, doessem, e às vezes choro quando o faço. E alivia.E há palavras que nunca te direi. Não por vergonha, não por medo, apenas porque não as entenderias, não saberias o que fazer com elas, cheias de vida, pesadas, carregadas de mim. Mas escrevo, escrevo tão rápido como penso, com uma fúria de viver, de crescer, de não doer, de sobreviver, de ficar sã, de não enlouquecer. Quem sabe um dia te dê a ler tudo isto que escrevi. Seja a fúria do desejo que sinto, seja a mágoa por algo menos bom, sejam recordações de momentos tão bons, seja as saudades que apertam, seja este sentimento a que já nem sei dar nome e que sinto por ti. Às vezes fazes-me rir de coisas parvas. E às vezes gosto de ti só porque existes. Mas tu não sabes. Não vês, não notas, o sorriso que te dou, de graça, instantaneamente, só por te saber aí. Não vês os meus olhos que procuram os teus e o esforço sobrenatural a que me remeteste, sem aviso. Por isso, sim, há palavras que nunca te direi. Calo-as dentro de mim, escrevo-as como se saíssem da minha pele, choro-as com lágrimas repletas de não saber que fazer mais, de não saber que dizer mais, não saber como ser mais.
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