sexta-feira, 11 de julho de 2008

Escrever


Gosto de escrever…mas acho que não o sei fazer.
Se conseguisse escrever todos os meus pensamentos, penso que faria algo, digamos interessante. Mas o pior é que os pensamentos percorrem-me a uma velocidade estonteante, enquanto os dedos furiosos tentam dedilhar as teclas do computador ao mesmo ritmo.
Não consigo…os pensamentos atropelam as palavras que se tentam desenhar no ecrã que se apresenta diante dos meus olhos.
Vagueio num pensamento desconhecido, enquanto escrevo algo que me parece um código secreto. Jogos rabiscos ao mar, em forma de barcos de papel como numa tentativa de arrancar de mim a desilusão de não conseguir escrever
Entre a fuga das palavras e a debandada da dúvida, a mente solitária, caminha desordenadamente sobre os trilhos da vida.Com os meus sonhos ou devaneios, enrolados em seda, carrego comigo a tristeza junto ao peito, e vagueio na deriva dos tempos tentando encontrar-me. Os meus dedos ainda não esquecidos das palavras, de olhos fechados que se negam a ler, de ouvidos tapados que não deixam saborear o som das palavras.
Assim perco-me na vã tentativa de contar um história para aquecer um coração mais solitário, ou ajudar a abrir as asas de uma imaginação que se recusa a voar.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Mulher Guitarra

Encosta-me ao teu peito bem perto do coração. Ajusta-me ao teu corpo – bem devagar.
Dedilha suavemente os fios do meu cabelo.
Quero seduzir teus ouvidos e ser seduzida pelo teu toque.
Sou semitom, aguda ou grave, escolhe-me. Posso ser temperada, que tal provar?
Toca-me com cuidado até que as tuas mãos caminhem sem vacilo e que as minhas curvas te conduzam ao delírio. Dedilha de novo os teus dedos calmamente para despertar meu desejo. Ouve as minhas notas mesmo que algumas desafinem. Com paciência vamos compondo poesias ritmadas e canções inesperadas. Tenho o meu valor. Descubre-me. Desnuda-me...
Segura-me firmemente com toda a extensão da tua mão e do coração, para que eu tenha a absoluta certeza que não cairei do teu colo. Não deixes um só espaço entre as tuas mãos e as minhas cordas - tenho medo de silenciar-me. Preciso que me toques diariamente e ouças meus sons tolos, meus concertos estranhos, meus prelúdios todos.
Sou de intervalos, de oito e oitavas. Ouça o nosso timbre certo na mais bela harmonia.
Quero as tuas mãos me inspirando a versar em cordas, a cantar em notas transpirando tons nesse compasso do coração.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Acordar


Hoje acordei com uma estranha sensação de vazio, de frio, de solidão… Levantei-me da cama com a determinação de quem queria fazer deste dia, um dia especial, com a convicção de que não me queria deixar arrastar pela vida, mas sim vivê-la. Mas os pés e as pernas não obedeceram à minha ordem e aninhei-me novamente no edredon com vontade de me esconder, de mim, da vida, com a esperança de adormecer e só voltar a abrir os olhos quando pudesse ser feliz de novo. Quando finalmente ganhei coragem, levantei-me. O meu loirinho ainda dormia de bochechas encarnadinhas, acerquei-me dele, beijei-lhe o rosto e admirei-lhe a tranquilidade do sono. Olhei-oscom a certeza de que, talvez, na minha vida só eles valha a pena, só ele mereça o meu amor, só ele me ame, só eles olhe para mim como se eu fosse a pessoa mais importante da sua vida e que… só ele precisem de mim. Caiu então a primeira lágrima, aquela que sufoquei na alma e na garganta desde que abri os olhos e senti-a no rosto como uma espada afiada. " Tu fazes o teu dia, tu é que escolhes como ele vai ser!!!» Entrei no duche decidida a deixar de ter pena de mim, decidi que a água do meu banho iria lavar toda a tristeza, toda a minha alma. Vesti-me o melhor que pude, pintei-me, enchi-me de perfume e fui preparar o pequeno almoço.
A cada dia que passa, mais me convenço que devo partir para uma nova vida. Que seria muito mais feliz, só com o meu pardalito. Arranjar um cantinho para os dois, para vivermos abraçadinhos, os poucos minutos que conseguimos estar no dia. Viver feliz com ele, sem ninguém a cobrar-me qualquer coisa. A viver, sem ninguém a chamar-me parva. A viver, sem me chamarem conflituosa, mesquinha, orgulhosa, estupida.
A viver, com muito amor. Neste momento, só consigo sentir um vazio, uma solidão imensa. Um frio no meu coração. Queria sair a correr para algum local onde me pudesse refugiar de todas as amarguras do mundo.
Infelizmente, não posso, por isso tenho que erguer a minha cabeça e tentar continuar a ser aquilo que sempre fui, uma lutadora.

Gritos


Calo os gritos que às vezes me apetece dar. Amordaço-me invisivelmente e não falo para que não saia de mim a linha ténue e cada vez mais corroída que nos une. Escrevo palavras que doem, como se elas, por si só, doessem, e às vezes choro quando o faço. E alivia.E há palavras que nunca te direi. Não por vergonha, não por medo, apenas porque não as entenderias, não saberias o que fazer com elas, cheias de vida, pesadas, carregadas de mim. Mas escrevo, escrevo tão rápido como penso, com uma fúria de viver, de crescer, de não doer, de sobreviver, de ficar sã, de não enlouquecer. Quem sabe um dia te dê a ler tudo isto que escrevi. Seja a fúria do desejo que sinto, seja a mágoa por algo menos bom, sejam recordações de momentos tão bons, seja as saudades que apertam, seja este sentimento a que já nem sei dar nome e que sinto por ti. Às vezes fazes-me rir de coisas parvas. E às vezes gosto de ti só porque existes. Mas tu não sabes. Não vês, não notas, o sorriso que te dou, de graça, instantaneamente, só por te saber aí. Não vês os meus olhos que procuram os teus e o esforço sobrenatural a que me remeteste, sem aviso. Por isso, sim, há palavras que nunca te direi. Calo-as dentro de mim, escrevo-as como se saíssem da minha pele, choro-as com lágrimas repletas de não saber que fazer mais, de não saber que dizer mais, não saber como ser mais.