sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

 Já me li em tantos livros.

Quando li esta frase, desliguei-me de tudo o resto que estava a fazer e, perdi-me em pensamentos.

Eu sou feita de livros. De letras, de palavras, frases. De viagens imaginárias, de viagens no tempo. 

e se sou feita de livros, claro que já me li em livros. Já me revi em histórias, em sonhos impossíveis.

Já fui a vilã, a heroína e, as vezes até o herói. Já vivi horrores, já sofri temores, já senti amores e dores.

Porque para mim um livro não é só paginas e caracteres, papel e couro. Um livro é como uma pessoa. Abraça-me conforta-me, embala-me, sussurra-me ao ouvido e, acalma-me. Mas também me faz chorar e sobressaltar.

É conselheiro e amigo. Mas como me perco num bom livro, é também meu inimigo ao chamar-me constantemente para voltar as suas páginas.

Infelizmente, a minha memória não serve para decorar frases que me tocam. Talvez se quando houvesse uma que me enchesse o peito a anota-se, conseguiria ter uma noção de tantas coisas que li e que revi.

Neste meu blogue (que ninguém irá ler algum dia, mas que é o meu cantinho de pensamentos perdidos) já uma vez mencionei um trecho de um livro, que me tocou de uma forma diferente de todas as outras.

Talvez por ser mãe, talvez porque o meu sonho concretizado foi ter o meu filho. Ou se calhar, também eu fui um crocodilo

"...- és capaz de guardar um segredo?
Laurel, sentada ao fundo da cama dos pais, assentira com a cabeça, e a mãe debruçara-se sobre ela de modo a que a ponta do seu nariz tocasse na ponta do da filha - Isto é porque eu já fui um crocodilo. há muito tempo, antes de ser uma mamã.
- a sério? - indagou Laurel contendo um grito.
- sim, mas acabei por me fartar. passava a vida à dentada e a nadar. e, sabes, as caudas dos crocodilos são muito pesadas, sobretudo quando estão molhadas.
- foi por isso que preferiu ser uma senhora, mãezinha?
- não, nem pensar. as caudas pesadas são uma maçada mas não são motivo suficiente para fugirmos às nossas obrigações. certo dia, estava eu estendida na margem de um rio...
- em africa?
- claro. em Inglaterra é que não era com certeza, não te parece?
laurel abanou a cabeça.
- ali estava eu, a apanhar banhos de sol, quando apareceu uma menina acompanhada da mãe. vinham e mão dada e eu apercebi-me de que gostaria muito de poder fazer o mesmo. e assim fia. transformei-me numa pessoa. e depois tive-te a ti. acabou por correr tudo bastante bem, reconheço, à exceção deste nariz."

Sim, já me li em livros e, este trecho é um belo exemplo.


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